Zahar

Blog da editora

Marielle, presente!

28 de Março de 2018

Logo após o assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes, a Zahar se posicionou em suas redes sociais com o texto abaixo.

"Em março de 1968 uma multidão marchou pelo centro do Rio de Janeiro em protesto pelo assassinato do secundarista Edson Luís de Lima Souto, morto durante uma ação da polícia. Cinquenta anos depois, a cidade do Rio e o Brasil voltaram a se comover e mobilizar, dessa vez pela execução brutal da vereadora Marielle Franco, ocorrida em 14 de março de 2018.

Mais do que exigir celeridade nas investigações e punição aos culpados, esse é o momento também de olhar para trás e entender os avanços da democracia brasileira nos últimos cinquenta anos. Da mesma maneira que a informação é considerada a maior ferramenta contra a ignorância, entendemos que a memória de uma grande tragédia talvez seja a única forma de evitar que ela se repita."

Com a intenção de contribuir para uma reflexão ainda mais profunda, hoje  – duas semanas depois e nenhum resultado das investigações  –  abrimos espaço para que nossos autores se manifestem sobre o momento atual que permitiu esse  triste episódio.

O primeiro texto que publicamos, aqui no blog e em nossas redes, é do neurocientista americano Carl Hart, autor de Um preço muito alto.

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A vida e a morte de Marielle Franco se tornaram um símbolo global da brutalidade que persegue indivíduos corajosos que ousam denunciar a injustiça, o racismo e os assassinatos perpetrados pelo Estado. Qualquer um que tenha estado no Brasil por algum tempo sabe duas coisas: 1) o Brasil não é para principiantes; e 2) há uma necessidade urgente de levantarmos nossas vozes repetida e veementemente contra essas injustiças.

Uma das observações mais surpreendentes e perturbadoras sobre o Brasil, esse lindo país, é o grande e desproporcional número de afro-brasileiros que têm sido sistematicamente postos à margem, excluídos de participação na vida pública, o que agrava as injustiças mencionadas acima. Por exemplo, afro-brasileiros constituem 50% da população, mas representam menos de 5% dos políticos eleitos e são virtualmente inexistentes em empregos de classe média. Isso é simplesmente inaceitável em uma sociedade democrática.

Eu reconheço que minha fala – assim como as de outros – receberá imediatamente respostas de políticos tradicionais, que tentarão se esquivar de sua falta de ação e da sua cumplicidade desviando o foco para traficantes de drogas de baixo escalão, criminosos insignificantes e outros. Essa é uma tática velha e doente. Minhas irmãs e irmãos brasileiros, por favor, não se deixem enganar. Mantenham a pressão sobre os poderosos, sobre aqueles que estão disparando os tiros, em todos os sentidos!

“Sista” Marielle vive para sempre em meu coração.

Carl Hart

 

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