Zahar

Blog da editora

Mariana Muaze

19 de Agosto de 2008
Muitos estudos foram feitos sobre a organização das famílias nos séculos passados e as mudanças nessa estrutura. Apesar disso, você conseguiu encontrar um caminho original. Como foi o processo de pesquisa e elaboração do livro?

A princípio, o tema da família sempre tinha sido um tema transversal nas minhas pesquisas. No mestrado, trabalhei com a transformação das noções de criança e infância na boa sociedade imperial durante a segunda metade do século XIX. Assim, comecei a refletir sobre que alterações o grupo familiar como um todo deveria ter sofrido nesse processo de “descoberta da infância”. Essa foi a inquietação que me levou a propor um estudo sobre a família oitocentista no doutorado. Contudo, os caminhos teórico-metodológicos que muitos estudos sobre a família e a história da família eram feitos no Brasil não me deixavam plenamente satisfeita. Não pela sua seriedade ou sofisticação, longe disso. Eles simplesmente não conseguiam aplacar a minha curiosidade sobre como os indivíduos se relacionavam no interior do grupo familiar. Quais papéis exerciam enquanto membros de uma comunidade familiar? O que os ligava em termos de sentimentalidades? Quais suas noções de privacidade e intimidade? E como as famílias se relacionavam entre si no seio da classe senhorial? 

Tais questionamentos me levaram a procura de fontes de cunho privado tais como cartas, diários, livros de assento e fotografias que pudessem me auxiliar a desvelar essas sentimentalidades e as formas de viver em família compartilhadas pela elite imperial. A existência desse tipo de material de cunho mais privado em arquivos brasileiros ainda é bastante rara, o que me fez ir à procura de colecionadores e familiares que pudessem me disponibilizar tais documentos caso os tivessem. Confesso que, a “sorte” de encontrar uma vasta documentação pertencente a uma só família me fez abandonar o meu projeto original que era trabalhar com três grupos familiares pertencentes à boa sociedade oitocentista e partir para uma análise de micro-história me valendo da família Ribeiro de Avellar. A partir daí, estudei e investi nessa metodologia e fui procurar outras fontes que me trouxessem diferentes informações sobre seus membros. A partir daí consultei o fundo da Fazenda Pau Grande do Arquivo Nacional, os inventários do CDH da Universidade Severino Sombra, os Arquivos da Cúria Metropolitana e do IHGB. Um trabalho de formiguinha, para tirar dos detalhes cotidianos aspectos importantes das formas de viver em família no século XIX.

Logo na introdução do livro, há a afirmação de que havia indícios de que a viscondessa de Ubá colecionou ao logo da vida as cartas que trocou com os pais, assim como as fotos dos familiares, por isso, havia em alguns casos a correspondência completa, com as respostas enviadas e não apenas as cartas escritas por ela. Acha que esse detalhe é um indício importante de como os laços familiares eram valorizados e estimulados no período?

Acho que esse detalhe diz muito sobre o conjunto de documentos pesquisados que, portanto, não devem ser entendidos como materiais avulso e sim como partes de uma coleção investida de afeto e significação por quem a compôs. Nesse sentido, o que é guardado, como é guardado, os micro-conjuntos que os documentos inscrevem e até o que é descartado é passível de análise. Contudo, acredito que outras famílias da classe dirigente podem ter compartilhado sentimentalidades e formas de viver muito próximas dos Ribeiro de Avellar sem terem tido, necessariamente, que formar uma coleção familiar. De acordo com o meu ponto de vista, o hábito de colecionar foi uma característica da viscondessa, o que os documentos nos permitem vislumbrar sobre seu cotidiano e formas de viver em família, isso sim era algo compartilhado. 

No Brasil do século XIX, a reputação de um elemento da família "contaminava" todos os outros? Por isso, era tão importante que os casamentos fossem cuidadosamente planejados? 

A classe senhorial da segunda metade do século XIX importou hábitos e modos de comportamento europeus provenientes de uma sociedade burguesa individualista, sem abrir mãos da escravidão e de vivências de família extensa que atrelavam o indivíduo à parentela. Apesar disso, já percebemos algumas alterações. A instrução individual passa a ser cada vez mais valorizada em homens e mulheres, porque o nome familiar já não é mais suficiente para sozinho garantir a sua permanência no seio das “melhores famílias”. O mesmo ocorre com a honra, ela passa a ser individualizada, mas ainda pesa sobre o nome familiar. No caso do casamento, além do prestígio a questão financeira também pesava bastante, pois o casamento era um momento estratégico para as famílias refazerem seus laços de solidariedade e se manterem enquanto grupo privilegiado nas futuras gerações.

Seu estudo ganhou vários prêmios, inclusive a menção honrosa do Prêmio Jorge Zahar de Ciências Sociais. Como foi para você receber este tipo de reconhecimento?

O trabalho do historiador é bastante solitário. Durante os três anos de pesquisa em arquivo em que passava horas e horas copiando e transcrevendo documentos, mas confesso que me diverti muito pensando e analisando aquele universo oitocentista. Quando fui escrever o texto final da tese, minha intenção foi compartilhar com o leitor essa sensação procurando fazer um texto leve que não perdesse o rigor acadêmico. Mas, confesso que nunca pensei que ganharia um prêmio com isso, muito menos dois. No caso do prêmio Arquivo Nacional 2007, desde quando eu escrevi a tese me preocupei em colocar as notas no formato indicado pela instituição para poder concorrer. Contudo, sabia que era um concurso disputadíssimo, reconhecido nacionalmente e que já publicou obras muito importantes para a historiografia brasileira. No caso do Prêmio Jorge Zahar, não é o autor que se inscreve diretamente, são os departamentos de pós-graduação que escolhem um trabalho para ser indicado. Quando minha orientadora Ana Maria Mauad me telefonou dizendo que o departamento de pós-graduação de História da UFF havia escolhido a minha tese dentre todas as defendidas em 2006, confesso que aquilo para mim já havia sido uma premiação. Ganhar a menção honrosa, então, nem se fala.
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