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Leia a introdução de "Prisioneiros da geografia", de Tim Marshall

04 de Junho de 2018

A geografia sempre moldou a nossa vida. O poder, as guerras, a política e o desenvolvimento social e humano, incluindo língua, comércio e religião, são delimitados pela geografia - e assim continua a ser, mesmo com os avanços tecnológicos.

Jornalista e correspondente internacional, Tim Marshall começou a se interessar por geopolítica durante sua experiência de reportagem em áreas de conflito. Em Prisioneiros da geografia, ele explica a geopolítica global a partir de dez mapas centrais, que examinam as principais regiões estratégicas do globo: Rússia, China, Estados Unidos, Europa Ocidental, África, Oriente Médio, Índia e Paquistão, Japão e Coreia, América Latina e, por fim, o Ártico.

Analisando o clima e os mares, montanhas e rios, desertos e fronteiras, oferece o contexto e ferramentas para que possamos entender de que forma as características físicas de um território influenciam os seus pontos fortes e os vulneráveis - e as decisões que seus governantes tomam.

 

Leia um trecho!


Introdução

Vladimir Putin se diz um homem religioso, um grande defensor da Igreja Ortodoxa Russa. Nesse caso, é bem possível que ele vá para a cama toda noite, faça suas orações e pergunte a Deus: “Por que não pusestes algumas montanhas na Ucrânia?”

Se Deus tivesse posto montanhas na Ucrânia, a grande extensão de terras planas que formam a planície do norte da Europa não seria um território que tanto encoraja os repetidos ataques à Rússia. Sendo as coisas como são, Putin não tem escolha: deve pelo menos tentar controlar as regiões planas a oeste. Assim é com todas as nações, grandes ou pequenas: a paisagem aprisiona seus líderes, dando-lhes menos escolhas e menos margem de manobra do que se pode pensar. Isso valeu para o Império Ateniense, os persas, os babilônios e mesmo antes; e vale também para todo líder em busca de um terreno elevado a partir do qual proteger sua tribo.

O terreno em que vivemos sempre nos moldou. Ele moldou as guerras, o poder, a política e o desenvolvimento social dos povos que habitam hoje todas as partes da Terra. A tecnologia talvez pareça superar as distâncias entre nós no espaço mental e físico, mas é fácil esquecer que o terreno em que vivemos, trabalhamos e criamos nossos filhos é importantíssimo; e que as escolhas dos que dirigem os 7 bilhões de habitantes deste planeta serão sempre moldadas, em alguma medida, por rios, montanhas, desertos, lagos e mares que nos restringem – e sempre o fizeram.

Em geral não há um fator geográfico mais importante que outro. Montanhas não são mais fundamentais que desertos, nem rios mais relevantes que selvas. Em diferentes partes do planeta, diferentes características geográficas estão entre os fatores dominantes na determinação do que as pessoas podem e não podem fazer.

Em termos gerais, a geopolítica examina as maneiras pelas quais os assuntos internacionais podem ser compreendidos através de fatores geográficos; não somente a paisagem física – as barreiras naturais ou conexões de redes fluviais, por exemplo –, mas também clima, dados demográficos, regiões culturais e acesso a recursos naturais. Fatores como esses podem ter um importante impacto sobre aspectos diferenciados de nossa civilização, de estratégia política e militar a desenvolvimento social humano, incluindo língua, comércio e religião.

As realidades físicas que sustentam a política nacional e internacional são desconsideradas, com demasiada frequência, tanto quando se escreve sobre história quanto na cobertura contemporânea da mídia acerca dos assuntos mundiais. A geografia é claramente uma parte do “por quê”, bem como de “o quê”. Ela pode não ser o fator determinante, mas com certeza é o mais subestimado. Tome, por exemplo, a China e a Índia: dois países imensos, com enormes populações que compartilham uma fronteira muito longa, mas não são política ou culturalmente alinhados. Não seria de surpreender se esses dois gigantes tivessem se enfrentado em várias guerras, mas, de fato, afora uma batalha de um mês de duração em 1962, eles nunca o fizeram. Por quê? Porque entre eles encontra-se a mais alta cadeia de montanhas do mundo, e é praticamente impossível fazer avançar grandes colunas militares através ou por cima do Himalaia. É claro que, à medida que a tecnologia se torna mais sofisticada, estão emergindo formas de superar esse obstáculo, mas a barreira física continua sendo um freio, e assim ambos os países concentram sua política externa em outras regiões, enquanto se mantêm de olho um no outro.

Líderes individuais, ideias, tecnologia e outros fatores desempenham seu papel na configuração dos fatos, mas são temporários. Cada nova gera- ção ainda se defrontará com as obstruções físicas criadas pelo Indocuche e o Himalaia; os desafios gerados pela estação das chuvas; e as desvantagens do acesso limitado a minerais naturais ou fontes de alimento.

Comecei a me interessar por esse assunto ao cobrir as guerras nos Bálcãs nos anos 1990. Observei de perto quando os líderes de vários povos, fossem eles sérvios, croatas ou bósnios, lembravam deliberadamente a suas “tribos” acerca das antigas divisões e, sim, das antigas desconfianças numa região repleta de diversidade. Depois que tinham separado os povos, não foi preciso muito para empurrá-los uns contra os outros.

O rio Ibar, no Kosovo, é um excelente exemplo. O controle otomano sobre a Sérvia foi cimentado pela batalha de Kosovo Polje em 1389, travada perto de onde o Ibar corre pela cidade de Mitrovica. Durante os séculos seguintes a população sérvia começou a se retirar para trás do Ibar, enquanto os albaneses muçulmanos desceram pouco a pouco da região montanhosa de Malesija para o Kosovo, onde se tornaram a maioria em meados do século XVIII.

Salte para o século XX, e ainda havia uma clara divisão étnico-religiosa delimitada mais ou menos pelo rio. Então, em 1999, atacadas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pelo ar e pelo Exército de Libertação do Kosovo por terra, as Forças Armadas iugoslavas (sérvias) bateram em retirada através do Ibar, rapidamente seguidas pela maior parte da população sérvia remanescente. O rio tornou-se a fronteira de facto do que alguns países hoje reconhecem como o Estado independente do Kosovo.

Mitrovica foi também o lugar onde as forças terrestres da Otan se detiveram. Durante a guerra de três meses houvera ameaças veladas de que a Otan pretendia invadir toda a Sérvia. Na verdade, as limitações da geografia e da política significavam que os líderes da Otan jamais tiveram realmente essa opção. A Hungria deixara claro que não permitiria uma invasão a partir de seu território, pois temia represálias contra os 350 mil húngaros étnicos que moram no norte da Sérvia. A alternativa era uma invasão a partir do sul, que os levaria ao Ibar muito rapidamente, mas as forças da Otan teriam então se defrontado com as montanhas.

Eu estava trabalhando com uma equipe de sérvios em Belgrado na época e perguntei o que aconteceria se a Otan chegasse: “Vamos pôr nossas câmeras de lado, Tim, e empunhar armas”, foi a resposta. Eles eram sérvios liberais, bons amigos meus e contrários a seu governo, mas ainda assim sacaram os mapas e me mostraram onde os sérvios defenderiam seu território nas montanhas e onde a Otan avançaria cada vez mais devagar até finalmente parar. Foi um certo alívio receber uma aula de geografia sobre a razão por que as escolhas da Otan eram mais limitadas do que a máquina de relações públicas de Bruxelas divulgava.

Uma compreensão de quanto a paisagem física era crucial na cobertura noticiosa nos Bálcãs me foi extremamente útil e benéfica nos anos seguintes. Por exemplo, em 2001, algumas semanas depois do 11 de Setembro, vi uma demonstração de como, mesmo com a tecnologia moderna de hoje, o clima ainda dita as possibilidades militares até dos exércitos mais poderosos do mundo. Eu estava no norte do Afeganistão, tendo cruzado o rio na fronteira com o Tadjiquistão numa balsa para me unir às tropas da Aliança do Norte que lutavam contra o Talibã.

Os aviões de caça e bombardeiros americanos já estavam no céu, atacando continuamente posições do Talibã e da Al-Qaeda nos frios e poeirentos morros e planícies a leste de Mazar-e Sharif a fim de abrir caminho para o avanço sobre Cabul. Após algumas semanas ficou óbvio que a Aliança do Norte se preparava para se deslocar em direção ao sul. E então o mundo mudou de cor.

Sobreveio a mais intensa tempestade de areia que jamais vi, conferindo uma cor amarelo-mostarda a todas as coisas. Até o ar à nossa volta parecia ter essa tonalidade, carregado como estava de partículas de areia. Durante 36 horas nada se moveu exceto a areia. No auge da tempestade não se conseguia enxergar nada situado além de alguns metros à frente, e a única coisa clara era que o avanço teria de esperar por boas condições climáticas.

A tecnologia por satélite dos americanos, na vanguarda da ciência, foi inútil, cega diante do clima dessa terra inóspita. Todos, desde o presidente George W. Bush até o Estado-Maior Conjunto das tropas da Aliança do Norte no local, tiveram simplesmente de esperar. Então choveu, e a areia que havia se depositado sobre tudo e todos se transformou em lama. A chuva caiu tão pesadamente que as cabanas de barro cozido em que estávamos morando davam a impressão de derreter. Mais uma vez ficou evidente que o movimento para o sul estava suspenso até que a geografia terminasse de se fazer ouvir. As regras da geografia que Aníbal, Sun Tzu e Alexandre o Grande conheceram ainda se aplicam aos líderes atuais.

 Mais recentemente, em 2012, recebi outra lição de geoestratégia: quando a Síria mergulhou na guerra civil em estado avançado, eu estava de pé no topo de um morro sírio, com vista para um vale ao sul da cidade de Hama, e vi um pequeno povoado queimando à distância. Amigos sírios apontaram uma aldeia muito maior a pouco mais de 1,5 quilômetro de distância, de onde disseram que o ataque tinha partido. Explicaram então que, se um dos lados conseguisse expulsar do vale um número suficiente de pessoas da outra facção, o vale poderia se unir a outra área, que levava à única autoestrada do país, e, como tal, seria útil para forjar um pedaço de território contínuo viável, que um dia poderia ser usado para criar um miniestado, se a Síria não pudesse ser reunificada novamente. Onde antes eu via somente o pequeno povoado em chamas, pude então perceber sua importância estratégica e compreender como as realidades políticas são moldadas pelas mais básicas realidades físicas.

A geopolítica afeta todos os países, seja na guerra, como nos exemplos citados, seja na paz. Haverá casos em qualquer região que se possa mencionar. Não posso explorar cada um deles nestas páginas: Canadá, Austrália e Indonésia, entre outros, não recebem mais que uma breve menção, embora fosse possível dedicar um livro inteiro apenas à Austrá- lia e às formas como a geografia moldou suas conexões com outras partes do mundo, tanto física quanto culturalmente. Em vez disso, concentreime nas potências e regiões que melhor ilustram os pontos essenciais do livro, cobrindo o legado da geopolítica do passado (formação de nações), as situações mais prementes que enfrentamos hoje (os distúrbios na Ucrânia, a influência cada vez maior da China) e olhando para o futuro (a crescente competição no Ártico).

Na Rússia observamos a influência do Ártico e como seu clima gélido limita a capacidade russa de se tornar uma potência verdadeiramente global. Na China vigoram limitações de poder porque não há uma Marinha global, e a rapidez com que o país está procurando mudar isso ficou agora patente. O capítulo sobre os Estados Unidos ilustra como sagazes decisões de expandir seu território em regiões-chave permitiu-lhes alcançar seu destino moderno como superpotência com dois oceanos. A Europa nos mostra o valor do terreno plano e de rios navegáveis para conectar regiões umas às outras e produzir uma cultura capaz de impulsionar o mundo moderno, enquanto a África é um excelente exemplo dos efeitos do isolamento.

O capítulo sobre o Oriente Médio demonstra por que traçar linhas em mapas desconsiderando ao mesmo tempo a topografia e, de maneira também importante, as culturas geográficas de uma dada área é receita certa de problema. Continuaremos a testemunhar essa dificuldade no século XXI. O mesmo tema vem à tona nos capítulos sobre a África e a Índia/ Paquistão. As potências coloniais traçaram fronteiras artificiais no papel, ignorando completamente as realidades físicas da região. Hoje se fazem tentativas violentas de retraçá-las, e elas ainda irão continuar por vários anos, após o que o mapa dos Estados-nação não terá mais o aspecto atual.

Exemplos muito diferentes do Kosovo ou da Síria são o Japão e a Coreia, na medida em que são países quase homogêneos etnicamente. Mas eles têm outros problemas: o Japão é uma nação insular desprovida de recursos naturais, ao passo que a divisão da Coreia é um problema que ainda aguarda solução. Enquanto isso, a América Latina é uma anomalia. Situada no extremo sul, está tão afastada do mundo exterior que o comércio global é difícil, e sua geografia interna é uma barreira à criação de um bloco comercial tão bem-sucedido quanto a União Europeia.

Finalmente, chegamos a um dos lugares mais inabitáveis da Terra: o Ártico. Durante a maior parte da história os seres humanos o ignoraram, mas no século XX descobrimos energia ali, e a diplomacia do século XXI determinará quem possui – e vende – esse recurso.

A ideia de que a geografia é um fator decisivo no curso da história humana pode ser interpretada como uma concepção desalentadora do mundo, razão por que é reprovada em alguns círculos intelectuais. Ela sugere que a natureza é mais poderosa que o homem, e que só podemos ir até certo ponto na determinação de nosso destino. Entretanto, outros fatores claramente têm influência sobre os acontecimentos. Qualquer pessoa sensata pode ver que a tecnologia moderna agora está dobrando as regras de ferro da geografia. Ela encontrou caminhos sobre ou sob algumas das barreiras, ou através delas. Os americanos já podem percorrer de avião toda a distância do Missouri a Mossul em missão de bombardeio sem precisar de algo concreto ao longo do percurso onde se reabastecer. Isso – e os seus Grupos de Batalha de Porta-Aviões parcialmente autossustentáveis – significa que eles não precisam mais ter um aliado ou uma colônia para estender seu alcance ao redor do mundo. Evidentemente, caso eles tenham uma base aérea na ilha de Diego Garcia, ou acesso permanente ao porto em Bahrein, isso abre outras opções; mas é menos fundamental.

Assim, o poder aéreo mudou as regras do jogo, tal qual a internet o fez, de um modo diferente. Mas a geografia – e a história de como as nações se estabeleceram dentro dessa geografia – continua decisiva para a nossa compreensão do mundo atual e de nosso futuro.

O conflito no Iraque e na Síria está enraizado no desprezo das regras da geografia pelas potências coloniais, ao passo que a ocupação chinesa do Tibete está enraizada na obediência a elas; a política externa global dos Estados Unidos é ditada por elas, e até o gênio tecnológico e a projeção de poder da última superpotência existente podem apenas mitigar as regras que a natureza, ou Deus, legou.

Que regras são essas? O lugar para começar é numa terra onde é difícil defender a supremacia, e por isso durante séculos seus líderes compensaram isso procurando se expandir. Trata-se da terra sem montanhas a oeste: a Rússia.

 

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