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Leia a apresentação de Antonia Pellegrino para “Jane Eyre: edição comentada e ilustrada”

18 de Junho de 2018

"Não sou um anjo; e não serei até morrer: serei eu mesma", dito por Jane Eyre

 

Publicado em 1847, Jane Eyre é o romance mais conhecido de Charlotte Brontë. Com toques góticos e boas doses de crítica social e moral, esse clássico da literatura pôs-se à frente de seu tempo ao apresentar uma personagem feminina forte e explorar questões de classe, sexualidade, religião e gênero.

Na edição comentada e ilustrada da coleção Clássicos Zahar, que tem tradução de Adriana Lisboa e apresentação de Antonia Pellegrino, acompanhamos o desenvolvimento emocional da protagonista e sua busca por espaço, respeito e autonomia financeira, num mundo que não esperava tais ambições vindas de uma mulher. 

A edição impressa do livro tem capa dura, acabamento de luxo, cronologia de vida e obra da autora e as ilustrações originais.

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Apresentação, por Antonia Pellegrino

Você tem em mãos um clássico. E isso pode soar chato. Mas em poucos capítulos você estará largando o celular para almoçar com Jane. Ela será sua companhia no banheiro. Terá lugar cativo na sua bolsa ou mochila. E vai fazer você ir embora mais cedo dos lugares para encontrá-la.

Tudo isso porque você tem em mãos um romance do século XIX, escrito como um diário, em primeira pessoa, por uma autora que maneja todos os recursos mais maravilhosos da construção narrativa e sabe fazer o leitor habitar estas páginas. A linguagem é vibrante, o ritmo não cai, as viradas não cessam, os mistérios são muitos.

A distância de quase duzentos anos entre você e este livro – que talvez faça parecer impossível conectar-se à história da órfã maltratada pela tia postiça, que vai estudar em um convento austero, onde aprende francês, bordado e piano, para depois se tornar preceptora de uma criança rica que não vai à escola (e paro por aqui nos spoilers) – sempre irá existir. Mas a literatura, quando é máquina do tempo, é a coisa mais linda. Em questão de instantes você estará sentindo o frio da Inglaterra pré-energia elétrica rachar-lhe as mãos.

Jane Eyre é uma obra-prima, embalada pelo conforto do melodrama. Seus diálogos pulsam. Suas descrições são precisas, perspicazes e na medida certa. Nas palavras de Virginia Woolf: “[Charlotte Brontë] não procura resolver os problemas da vida humana; ela é até alheia à existência desses problemas; toda a sua força, que é ainda mais forte por ser contida, está na afirmação, ‘Eu amo’, ‘Eu odeio’, ‘Eu sofro’.” Simplesmente irresistível.

Pelas mãos de Charlotte Brontë, você vai acompanhar a saga de Jane Eyre da infância à vida adulta, quando ela viverá um amor impossível, graças, sobretudo, à desigualdade que a afasta do outro personagem central: o sr. Rochester. Desigualdade de classe, isto é, social e financeira, e de gênero. Apontar essa desigualdade, criticá-la, pensar a respeito, iluminá-la é o que a autora faz nesta história de amor. Nesse sentido, Brontë se inscreve numa linhagem de autoras que trabalham, no bojo de suas escritas, com a premissa de que a luta pela igualdade de gênero é algo atingível, e que a desigualdade, nas suas mais variadas facetas, foi construída – podendo, dessa maneira, ser algo passível de ser transformado.

Na abertura do segundo capítulo, a personagem diz: “Resisti durante todo o caminho.” A frase, usada para narrar o momento em que a pequena Jane é levada ao quarto vermelho e fantasmagórico onde será trancada sozinha, retorna constantemente ao longo de sua trajetória. Segundo a escritora Joyce Carol Oates: “Que uma mulher possa ‘resistir’ aos comandos do seu destino (social ou espiritual) talvez não seja uma completa novidade na literatura inglesa até a publicação de Jane Eyre, em 1847: temos, afinal de contas, as voluntariosas heroínas de algumas peças de Shakespeare, e aquelas das elegantes comédias de costumes de Jane Austen. Mas Jane Eyre é uma jovem totalmente desprotegida do ponto de vista social e familiar, bem como desprovida de independência financeira; ela não tem poder; ela é, como a própria Charlotte Brontë a julgava, ‘pequena, simples e quase uma quaker’ – carente das mais superficiais e no entanto aparentemente necessárias virtudes da feminilidade.”

Não é mera coincidência que, historicamente, as taxas de violência entre o grupo dos “sem poder” sejam altíssimas. E são inúmeras as situações de violência física, verbal e psicológica às quais Jane é exposta, e contra as quais resiste. Jane poderia ter-se submetido às agressões da rica tia postiça, de seus filhos e empregadas, para viver protegida e até com algum luxo numa casa próspera. Mas ela prefere dizer não. “Eu era uma estranha em Gateshead Hall”, diz, sem deixar sua diferença se tornar fraqueza. Com instinto de sobrevivente, após um colapso nervoso a menina de dez anos pede para ir viver em uma escola.

Diante da chance de livrar-se dela, a tia permite a mudança para o orfanato de Lowood, cujo diretor “tem analisado as melhores maneiras de esmagar nas crianças esse sentimento mundano que é o orgulho”. Ao receber a notícia de que irá embora, a menina, que carrega a pecha de má e ardilosa, num aguerrido gesto de resistência ousa falar sua verdade para a tia adulta, até então dona de seu destino. Jane faz um desabafo de todas as violências que sofrera na casa. “Uma pradaria em chamas, devorando tudo” é a imagem que a autora usa para descrever o estado em que a menina se encontra após a catarse.

Se na infância a resistência da protagonista é impulsiva, reativa e violenta, após os anos de estudo no colégio interno, com sua disciplina massacrante, a resiliência torna-se tenaz e madura, apesar da encarniçada tentativa de alienar as internas no orfanato.

Jane é capaz de dizer: “Cansei-me, numa tarde, da rotina de oito anos. Desejava liberdade, ansiava pela liberdade.” Mais à frente, reflete: “Das mulheres se espera que sejam muito calmas, de modo geral. Mas as mulheres sentem como os homens. Necessitam de exercício para suas faculdades e espaço para os seus esforços, assim como seus irmãos; sofrem com uma restrição rígida demais, com uma estagnação absoluta demais, exatamente como sofreriam os homens. E é uma estreiteza de visão por parte de seus companheiros mais privilegiados dizer que elas deveriam se confinar a preparar pudim e tricotar meias, a tocar piano e bordar bolsas. É insensato condená-las ou rir delas se buscam fazer mais ou aprender mais do que o costume determinou necessário ao seu sexo.”

A inteligência precoce, o coração pulsante e a firmeza fazem Jane renegar as qualidades femininas da época e não aceitar sujeitar-se a um destino estreito e repleto de humilhações. Não se assuste, mas isso faz dela uma feminista. Quase setenta anos depois do início dos debates por igualdade de gênero na Inglaterra e na França, Jane/Charlotte ainda estão completamente à frente de seu tempo.

As cenas iniciais de aproximação entre Jane e o sr. Rochester são exemplos antológicos do uso da não violência, aliada à inteligência crítica, como forma de ultrapassar o lugar estreito onde a sociedade insiste em tentar manter as mulheres. No acidente que marca o primeiro encontro, enquanto ele a acusa por tê-lo derrubado do cavalo, ela o ajuda a montar de volta, mas sem se desculpar. Já em casa, diante da lareira e da aspereza do patrão, Jane não se intimida; ao contrário, sente-se digna e consegue se impor. Seu respeito por si mesma é tamanho que Rochester chega a assumir o próprio autoritarismo, como quem pede licença para continuar agindo como sempre fez. No encontro seguinte o patrão, disposto ao diálogo, convoca sua empregada Jane. Alega que, por ser mais velho, teria o direito de mandar nela. Frase com a qual ela discorda, realçando que “sua alegação de superioridade depende do uso que fez de seu tempo e experiência”, além de salientar o paradoxal fato de que ele “parece esquecer que me paga trinta libras ao ano para receber ordens suas”. Nessas três passagens, Jane delimita os espaços onde a relação dos dois pode se dar. Mais do que isso, estabelece os termos constitutivos da relação. A partir daí, Rochester é capaz de baixar as armas. Estão criadas as condições para florescer uma amizade, e mais tarde um amor.

Joyce Carol Oates, novamente, escreveu: “Jane pensa, entende, julga. É sua inteligência que primeiro a torna atraente para Rochester, o fato de ela o enfrentar, de ultrapassá-lo racionalmente. Ela pesa e compara sua relação potencial com St. John à que tem com Rochester. Ela sabe onde funcionará melhor, ampliando sua capacidade de fazer o bem e sendo mais feliz. Da mesma forma, a chave para seu casamento com Rochester é o fato de que ela se tornou sua igual, financeira e socialmente. Ela pode aceitá-lo em seus próprios termos. É uma escolha intelectual, tanto quanto uma rendição emocional. É uma das coisas que fazem de Jane Eyre um romance feminista radical, uma boa distância à frente de seu tempo (e da época de Virginia Woolf).”

O marco fundador dos feminismos no mundo ocidental acontece durante a Revolução Francesa, no século XVIII. À época, as reivindicações iniciais por maior inserção na vida política e social eram apenas para fornecer direitos aos homens. Como explica a professora de filosofia Carla Rodrigues, no documentário #PrimaveraDasMulheres:1 “Nesse momento histórico havia, e há até hoje, uma sobreposição entre homem e humanidade. O padrão da humanidade era o homem. A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão é um exemplo disso. Ela é proposta como se a mulher não fizesse parte do conjunto da humanidade.” Em 1791, contudo, a ativista abolicionista francesa Olympe de Gouges propõe a Declaração Universal dos Direitos da Mulher e da Cidadã. E entra para a história como a primeira feminista.2 Um ano depois, na Inglaterra, a escritora Mary Wollstonecraft publica Reivindicação dos direitos da mulher. Cresce então a primeira onda feminista, que varreria o mundo nos séculos seguintes, demandando um espaço cidadão para as mulheres e alterando completamente suas experiências.

É nesse contexto que nasce Charlotte Brontë, em Thornton, condado de Yorkshire, na Inglaterra, em 1816. Filha de um clérigo da Igreja Anglicana, ela é a terceira em uma família de seis filhos. Aos cinco anos, com o falecimento da mãe, o pai envia Charlotte, as irmãs Emily e Anne e o irmão Branwell para morar com uma tia, e as crianças são educadas em casa até serem mandadas para um colégio interno. Nesse período, elas usam a escrita e a ficção como forma de animar uma vida solitária e de privações – sobretudo depois que o pai as presenteia com uma caixa com doze soldados de madeira, atiçando sua criatividade. Passam então a inventar histórias em que esses bonecos são personagens. É no colégio interno que Maria e Elizabeth, as irmãs mais velhas de Charlotte, morrem de tuberculose. Anos depois, Charlotte trabalha como preceptora e então como governanta, além de viver um amor impossível com um homem casado. Qualquer semelhança com a trajetória de Jane Eyre não é mera coincidência. Há muito de autobiografia no romance.

Depois de a autora ter tido a primeira versão de Jane Eyre rejeitada, e considerando o preconceito da época em relação às escritoras mulheres, ela recorreu à prática então comum de usar um pseudônimo masculino: Currer Bell. O livro obteve enorme sucesso de público e de crítica. A identidade de Currer chegou a ser questionada, porém as duas edições seguintes continuaram assinadas sob pseudônimo. E assim Charlotte tornou-se escritora, como já eram as irmãs Emily, autora de O morro dos ventos uivantes, e Anne, que escreveu Agnes Grey.

“Quando o assunto é literatura inglesa do século XIX – e muitos são os mestres desse período – temos de tirar o chapéu para a família Brontë. Todos os membros desse clã tinham pendores literários e só uma coisa foi capaz de afastá-los de seu ofício: a morte”, escreveu Heloísa Seixas. Sete anos após a publicação do romance, Charlotte falece, em 1855, grávida de Arthur Bell Nicholls, de causas nunca esclarecidas, cujas especulações vão de desnutrição a tuberculose.

Desafio o leitor a pensar em outro romance tão ou mais adaptado para o cinema e a TV. Pode e deve haver, mas Jane Eyre certamente não fica muito atrás. O tempo só reforça o diálogo que a personagem e o enredo estabelecem com diferentes épocas.

A primeira adaptação para o cinema foi em 1934, pelas mãos de uma roteirista mulher, Adele Comandini. Jane ganhava as telas num filme preto e branco, de baixo orçamento, um tanto precário, mas, na medida do possível, fiel ao ímpeto combativo da personagem. A segunda versão cinematográfica, de 1943, contava no time dos roteiristas com o escritor Aldous Huxley. Nela, o diretor se vale do que há de gótico no livro para usar elementos estéticos do horror, como a fotografia sombria e a trilha tensa. A película é estrelada por Joan Fontaine e o jovem Orson Welles – a melhor escalação de todas para o sr. Rochester (e com interessantíssima interpretação). Essa adaptação consegue duas “proezas”: é protagonizada pelos personagens masculinos – com o requinte de, nas cenas onde estão duas mulheres, elas basicamente falarem sobre os homens – e apresenta uma Jane submissa.

Em 1950, a TV americana exibe uma Jane Eyre carregada no melodrama, com o galã Charlton Heston dando vida ao feioso Rochester. Aqui, a história começa quando Jane deixa o orfanato de Lowood. Essa é a primeira de inúmeras séries para a TV, produzidas em todo o mundo. Até que, em 1970, enfim o cinema conhece uma Jane Eyre minimamente à altura do romance. Com trilha de John Willians e bela fotografia, o filme constrói dramaticamente a relação de poder entre Rochester e Jane, sendo esta interpretada com firmeza e sem doçura, por Susannah York. Curioso como soluções que não estão no livro – como o castigo de Helen Burns (a melhor amiga de Jane) na chuva – chegam a esta e a outras versões, num diálogo entre os roteiros dos filmes.

Mais de duas décadas depois, provavelmente insatisfeito com o que a linguagem cinematográfica já contribuíra ao livro, o diretor italiano Franco Zefirelli realiza, em 1996, sua bem-dirigida adaptação com Charlotte Gainsbourg e William Hurt privilegiando a história de amor. Dez anos depois, a BBC novamente faz uma série a partir do romance – já havia produzido outra em 1983 –, que é tida por muitos fãs do livro como a melhor adaptação audiovisual.

Até 2018, ano em que este volume está sendo republicado, a última adaptação para o cinema data de 2011. Trata-se de uma cuidadosa produção da prestigiada Focus Feature, dirigida pelo então estreante Cary Fukunaga, em tom sóbrio, e por isso tocante, onde a questão da igualdade é frontalmente abordada pelos personagens estrelados por Mia Wasikowska e Michael Fassbender.

Um clássico só se torna um clássico por sua capacidade de encantar gerações e gerações. Não o ter lido é tão maravilhoso que me causa inveja. Porque então você tem a oportunidade de ler com olhos frescos. Conhecer Jane ou reconhecê-la, nesta novíssima tradução feita pela escritora Adriana Lisboa, é uma sorte. Em poucos capítulos você já estará largando o celular para almoçar com Jane. Desejo boa viagem.

Antonia Pellegrino

 


  

Antonia Pellegrino é roteirista, feminista e cineasta. Recebeu o prêmio de melhor roteiro adaptado da Academia Brasileira de Cinema por Bruna Surfistinha e o Prêmio ABL de Cinema por Tim Maia. Realizou o documentário #PrimaveraDasMulheres e escreveu Cem ideias que deram em nada. É curadora do blog #AgoraÉQueSãoElas, na Folha de S. Paulo. Tem formação em ciências sociais e mestrado em letras.

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