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Entrevista: Gustavo Franco

09 de Dezembro de 2008
O homem que roubou Portugal tem a sua marca. Foi um livro que recebeu sua apresentação e tratamento. Como começou seu envolvimento com a obra?
A história me encantou de duas maneiras, a primeira a partir do julgamento em Londres onde o Banco Central de Portugal processou Waterlow, fabricantes do meio circulante português e causadores, em boa medida, de toda a confusão. Esse episódio é um clássico em matéria de Direito Monetário, um dos grandes momentos da discussão doutrinária sobre a natureza jurídica do dinheiro nas sociedades modernas. Mais adiante, deparei-me com a mesma história quando trabalhava com os textos econômicos de Fernando Pessoa e encontrei o poeta fascinado com o episódio. Foi então que descobri o maravilhoso livro reportagem escrito por Murray Bloom, publicado em 1966, que oferece a narrativa definitiva sobre tudo o que se passou. A reedição desse livro, com algum material adicional para lhe dar contexto, oferece ao leitor brasileiro uma das mais maravilhosas histórias do folclore macroeconômico de todos os tempos. 

Na apresentação há a informação de que, desde o terremoto de 1755, Portugal não sofria um abalo tão grande. Isso é o que mais impressiona em toda a história? Que um homem com uma idéia aparentemente mirabolante tenha proporcionado um abalo considerável na economia de Portugal?
A história é a de um crime de falsificação, ou de emissões não autorizadas de moeda, que muito se assemelha ao que fizeram os bancos estaduais no Brasil durante muitos anos. Foi um enorme choque econômico, uma dessas coisas extraordinárias que ocorrem em momentos de anarquia, e que jamais poderia acontecer em condições normais. É raro, porém, que se tenha um choque econômico associado a uma só pessoa, e um punhado de comparsas, e que se tenha um relato tão minucioso de cada um dos passos dessas pessoas. É isto o que faz este livro imperdível.

As transcrições de Fernando Pessoa não estão na versão original. Houve toda uma pesquisa dessa parte?
Murray Bloom deixou passar essa pequena preciosidade, as notas que Fernando Pessoa tomou do julgamento de Alves Reis em 1930. Esses documentos não estavam disponíveis quando Bloom escreveu o seu livro. É verdade que não acrescentam fatos novos ao que já se sabia; mas é seguramente um privilégio para o leitor brasileiro ter as impressões de Fernando Pessoa sobre os eventos do livro.
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