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Entrevista com Flavio Pessoa

01 de Julho de 2008
Por que escolheram especificamente esta história? Por ser de mais fácil adaptação para os quadrinhos?

F.P. - A primeira idéia era fazer um livro maior, com mais páginas e quatro contos. A cartomante já estava entre eles. Depois, preferimos dar maior destaque a um conto, aumentando a adaptação. A cartomante foi escolhida não apenas por ser uma história dinâmica, envolvendo um triângulo amoroso e uma sugestão de crime passional no ar, durante toda a narrativa, além de ser uma das histórias que mais descreve o Rio de Janeiro. Teve um grande peso para a escolha do conto, o fato de ser um dos mais conhecidos de Machado, estudado em escolas e cobrado nos vestibulares. O grande objetivo desta adaptação é seduzir os alunos para o mundo da literatura, mostrando aos professores como a história em quadrinhos pode se tornar uma grande aliada nesta difícil empreitada. 

Já havia adaptado outras obras?

F.P. - Já havia feito, também com a ajuda do Mauricio* no roteiro, uma adaptação para quadrinhos de dois contos da série Vida como ela é..., de Nelson Rodrigues, que fizeram parte de uma exposição na galeria da Faculdade da Cidade (atual UniverCidade), em 2001, em homenagem aos vinte anos de sua morte, completos no ano anterior. A Imagem de Nelson Rodrigues era composta por ilustrações e quadrinhos inspirados em romances, peças, contos e crônicas do dramaturgo. Tentamos publicar o trabalho, mas embora as editoras demonstrassem grande interesse, era necessário um grande investimento (os direitos autorais do Nelson sempre foi um dos mais caros) e não havia essa onda de adaptação na época. 

O que acha desta onda de adaptação de obras clássicas para quadrinhos, como da obra de Proust, por exemplo, Em busca do tempo perdido?

F.P. - Vejo surgir uma oportunidade de mercado que eu esperava desde que comecei a estudar literatura, no segundo grau. Outro dia mesmo, me lembro que eu costumava emprestar adaptações de quadrinhos estrangeiras para a minha primeira professora de literatura, no Bennett. Eu queria que ela recomendasse às turmas ou até que as usasse como material didático. Mas não havia uma grande adaptação de literatura nacional, foco das aulas (a não ser aquelas antigas, de linguagem mais convencional e esgotadas há anos). Acredito que essa onda de adaptações bem produzidas, com um visual arrojado, com os melhores desenhistas e roteiristas do país, representa uma nova postura dos quadrinhos no Brasil. 

A adaptação do Proust foi muito bem recebida na Europa, ganhou prêmios internacionais e muito prestígio, mas o público europeu é completamente diferente do brasileiro. Na França há uma cultura que cultua e consome tanto os quadrinhos, quanto literatura, como qualquer todo tipo de arte. Até há poucos anos, tínhamos que procurar os quadrinhos na sessão infantil, enquanto, em Paris, existe uma livraria de três andares especializadas em quadrinhos, freqüentada por um público de todas as idades: alunos, professores e intelectuais. O sucesso das bienais de quadrinhos, no início dos anos 90, provou que havia muito mais fãs no Brasil do que se imaginava. Mas faltava uma diversidade maior de produções nacionais voltadas para um público adulto. Acho que o casamento com a literatura nacional, já respeitada mundialmente, pode ajudar a aumentar esse público. 

Há outros projetos neste sentido para o futuro?

F.P. - Estou trabalhando, atualmente, numa retrospectiva da história do Brasil dos anos 50, com ilustrações e quadrinhos sobre os principais acontecimentos: do suicídio de Getúlio à construção de Brasília; as histórias do samba e da Bossa Nova e dois momentos marcantes no futebol, a decepção de 50 e a conquista em 58. É um trabalho experimental, que mistura linguagens gráficas, como quadrinhos e infográficos, além de letras de música ilustradas. Estou desenvolvendo especialmente para a galeria da UniverCidade. Para mim, esta exposição é significativa, pois na estréia, em agosto, estarei completando dez anos de formatura nesta mesma instituição.
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