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Entrevista: Carlos Alberto Medeiros

22 de Dezembro de 2014

Martin Luther King "é um ícone não apenas da luta contra o racismo, mas da luta pela dignidade do ser humano. Uma figura realmente inspiradora", diz Carlos Alberto Medeiros, tradutor de A autobiografia de Martin Luther King, organizado por Clayborne Carson. Jornalista, militante e estudioso da questão racial, Carlos Alberto fala, nessa entrevista exclusiva, sobre a cultura negra e a importância de King para a história mundial. 

Carlos Alberto Medeiros em uma de suas palestras sobre Luther King
 

1 - O que Martin Luther King representa para você? E como foi a experiência de traduzir o livro?
King é um ícone não apenas da luta contra o racismo, mas da luta pela dignidade do ser humano. Uma figura realmente inspiradora. No meu caso pessoal, o interesse por sua vida e obra é ainda maior pelo fato de eu ser um militante e estudioso da questão racial, autor de Racismo, preconceito e intolerância (juntamente com os antropólogos Jacques D’Adesky e Edson Borges), que está na sétima edição, e Na lei e na raça. Legislação e relações raciais Brasil – Estados Unidos, resultado de minha dissertação de mestrado, com o qual iniciei um mergulho nos estudos comparativos abordando as duas sociedades. Isso já seria suficiente para me despertar um interesse especial pela obra. Mas ainda há mais. Nos anos 80 do século passado, conheci Coretta King e depois Martin Luther King III, que visitaram o Rio. Na sequência, estive algumas vezes no Martin Luther King Center, em Atlanta, a última delas em 2010, quando, no mesmo dia, ganhei um presente: The Autobiography of Martin Luther King. Ou seja, quando a Zahar me propôs traduzi-lo, eu já tinha o privilégio de conhecer o livro.  

2 - Na sua opinião, quais os acontecimentos mais impactantes na trajetória de King reveladas na autobiografia?
No plano pessoal, um incidente relatado logo no início, ocorrido quando ele tinha seis anos de idade, em que o pai de um menino branco seu amigo o proibiu de brincar com ele – exatamente o que aconteceu comigo aos nove anos quando morava em São Paulo. Isso reforçou não apenas meu envolvimento com a obra, e o trabalho, mas também a certeza da importância do enfoque comparativo. Do ponto de vista mais amplo, o relato do boicote dos ônibus em Montgomery, que o projetou à posição de referência nacional e internacional na luta contra o racismo, é para mim o evento mais impactante de todos, mostrando um embate que envolveu um nível extraordinário de determinação e coragem, e também como se forjou a estratégia de usar a violência e a brutalidade dos adversários como arma para derrotá-los. Os outros grandes momentos são a entrega do Prêmio Nobel da Paz, em 1962, e a Marcha sobre Washington, no ano seguinte.  

 
Em Atlanta, com o Cônsul do Brasil Adalnio Senna Ganem, Vovô do Ilê, Martin Luther King III, Ivan e João Jorge do Olodum (2010)

3 - Coretta Scott King, líder-ativista dos direitos civis na luta contra o racismo e discriminação, confiou os documentos do falecido marido a Clayborne Carson, que assumiu então a função de diretor do “King Papers Project”, focando toda sua trajetória acadêmica no estudo da vida e obra de Luther King. Qual a importância de um projeto como esse para o mundo?
A figura de King é, sob vários aspectos, inspiradora. Ao revelá-lo ao público em geral como um ser humano que conseguiu ultrapassar os limites materiais, psicológicos e simbólicos impostos ao seu grupo, de forma frequentemente desumana e por vezes irracional, por um segmento dominante totalmente domado por uma espécie de histeria racial, King é um exemplo mesmo para quem possa discordar de seu pacifismo radical. E Clayborne Carson é uma figura decisiva na preservação e divulgação desse legado.   

4 - O que você considera que mudou desde a militância de King até os dias atuais?
Tenho ido com certa frequência aos Estados Unidos nos últimos vinte anos, como conferencista e palestrante, participando de seminários e eventos culturais. Com isso já estive em lugares como Providence, Ithaca, Albany, Filadélfia, Baltimore, Kansas City, geralmente fora dos circuitos turísticos, e já fiz viagens interestaduais de ônibus e de trem. Tenho, assim, um retrato do país real, para além dos clichês. Tendo em vista o que conheço dos livros e filmes que retratam os Estados Unidos antes da década de 1970, posso afirmar que muita coisa mudou. Já estive em ambientes como lojas e restaurantes luxuosos e minha presença jamais provocou a surpresa que às vezes provoca por aqui. Os negros estão por toda parte, pelo menos nas cidades em que já estive, e jamais presenciei ou sofri um tratamento discriminatório. Isso revela uma grande mudança ocorrida nas últimas décadas. Em algumas cidades, como Atlanta, os negros detêm o poder político há pelo menos quarenta anos, e alguns têm inserção no poder econômico, como grandes empresários. Ao mesmo tempo, se vemos várias famílias negras, por exemplo, num bom restaurante, tendo chegado numa Mercedes ou BMW – o que seria praticamente impossível por aqui –, há muito pouca, quase sempre nenhuma, interação entre negros e brancos, a insinuar a existência de uma distância permanente entre os dois grupos. A eleição de Obama à presidência e as reações que isso tem provocado entre uma parcela significativa da população branca fornecem uma nítida ilustração dessas contradições. A existência de um presidente negro no mesmo momento em que se multiplicam os casos de assassinato, por policiais, de afro-americanos desarmados – situação, infelizmente, comum no Brasil – constitui outro exemplo disso.            

5 - Na sua opinião, qual maior legado deixado por Luther King?
A convicção de que vale a pena lutar por um ideal – ainda que isso possa ter custos elevados.

A autobiografia de Martin Luther Ling
Organizador: Clayborne Carson
Tradutor: Carlos Alberto Medeiros 

 

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