Zahar

Blog da editora

Caroline Weber

05 de Agosto de 2008
Em seu livro, vemos como é possível contar a vida de Maria Antonieta e ressaltar os principais acontecimentos políticos da época só analisando o guarda-roupa da rainha. Como chegou a conclusão de que esse era um ponto essencial e que ainda precisava de uma análise mais profunda?
Eu comecei a prestar atenção no significado político das roupas de Maria Antonieta quando estava escrevendo meu primeiro livro, sobre o Reinado do Terror. Foi quando notei que revolucionários e jornalistas constantemente tinham muito a dizer, e em muitos detalhes, sobre os trajes da rainha. Eu estava curiosa para saber a razão de os líderes mais poderosos da Revolução e seus defensores – que não necessariamente eram ligados à moda – saberem tanto sobre as roupas de Maria Antonieta e vê-las como uma prova de sua posição "contra-revolucionária", "anti-francesa", de um comportamento anti-feminino. Essas questões fizeram com que eu mergulhasse na história das suas escolhas relacionadas à moda e que pensasse sobre o seu significado para o público durante o antigo regime e a Revolução. E o que eu descobri foi que, do primeiro ao seu último dia em solo francês, as escolhas que fez sobre como se vestir transmitiam – e tinham a intenção de transmitir – poderosas mensagens políticas para o povo da França. 

Maria Antonieta foi criticada por usar roupas masculinas de montaria. Recebeu críticas por adotar um estilo simples no período em que viveu no campo. Mais críticas por gastar além do que deveria com roupas. Apesar disso, foi extremamente copiada pelas damas da época. Em sua opinião, esses fatos não revelariam muito mais uma dificuldade do povo em aceitar e admitir que admirava uma rainha de origem austríaca?
Sim, em muitos aspectos, as críticas que Maria Antonieta recebeu em relação aos seus trajes – da roupa masculinizada de montaria que usava em caçadas reais à simples vestimenta de campo que adotou no Petit Trianon – tinham a ver com uma antiga e arraigada fobia pela Áustria. As pessoas esqueciam que Maria Antonieta tinha se casado com o futuro rei Luís XVI com a intenção de solidificar uma aliança altamente controversa entre a França e a Áustria, dois países que haviam sido inimigos por gerações. Por isso, muitos cidadãos viram com ceticismo a sua chegada à Versalhes e os oponentes da aliança franco-austríaca usaram suas decisões de moda não convencionais como pretexto para criticar e apontar sua inadequação para ser rainha da França. Sua vestimenta de montaria masculina levou seus inimigos a afirmar que ela era lésbica; isso era visto como uma espécie de "problema" derivado de sua herança, desde que a homossexualidade feminina ficou conhecida na França do século XVIII como um vício alemão. Da mesma forma, os vestidos brancos e claros que ela usou no campo criaram um escândalo, porque foram vistos como a evidência de um descuido austríaco pela elegância e formalidade francesa. O fato desses vestidos serem feitos de um linho importado e musselina e não da preciosa seda francesa, cujas roupas da corte normalmente eram feitas, só deixaram as pessoas ainda mais irritadas. Maria Antonieta foi acusada de arruinar a indústria da seda francesa com o seu novo estilo. 

Que período de Maria Antonieta influenciou mais o desenvolvimento da moda nos anos seguintes? A sua ousadia foi mais importantes do que o que ela usou?
Todo período na vida de Maria Antonieta foi importante no desenvolvimento de seu estilo pessoal. Ela chegou a Versalhes com 14 anos e morreu na guilhotina aos 37. Nesse período, estava constantemente inventando novos trajes com a intenção de confrontar diferentes desafios políticos que apareceram durante o seu reinado na França. Seus trajes de equitação masculinos e os penteados altos, conhecidos como "pouf", por exemplo, procuravam demonstrar aos seus inimigos que ela detinha mais poder (econômico e simbólico) do que realmente tinha, numa época em que eles tentavam derrubá-la da posição de esposa de Luís XVI. As jóias agressivamente brilhantes e os conservadores vestidos de seda que adotou durante os primeiros anos da Revolução foram sua forma de demonstrar aos revolucionários franceses que ela não aceitava suas novas idéias de liberdade, igualdade e fraternidade; estes trajes transmitiam sua sintonia com a antiga ordem, da qual ela e seu marido eram os cabeças. E o vestido branco e simples que usou em sua execução, em 1793, foi sua última e explícita declaração transmitida através da moda: era a cor do emblema Bourbon, a flor-de-lis, e a posicionava como um mártir da monarquia destituída. A razão também de eu ter achado sua história tão fascinante de se pesquisar e contar é que ela sempre achava novas formas de se expressar e de transmitir uma mensagem dramática, através da roupa que selecionava.

Os estilistas da Rainha apenas seguiam suas ordens ou Maria Antonieta tinha o mérito de saber escolher profissionais ousados e orientá-los na confecção do que queria vestir?
Maria Antonieta confiava em dois estilistas em particular: Rose Bertin, para seu guarda-roupa, e Leonard, para seus penteados. Como acontece hoje com os estilistas das celebridades, Bertin e Leonard se transformaram em estrelas em suas áreas – famosos por fazerem seus clientes parecerem fabulosos e procurados por mulheres de todas as classes sociais que queriam copiar o glamour da rainha. E assim como os mais conhecidos estilistas de hoje, eram agressivos ao usar a publicidade com o intuito de expandir seus negócios e ganhar muito dinheiro. Os dois eram ainda franceses de uma classe média baixa. A dupla ficou muito rica com a associação a Maria Antonieta e ambos tinham um afetado ar aristocrático (Leonard chegou a usar artigos que eram unicamente utilizados pelos homens nobres, enquanto Bertin se recusava a atender clientes que não considerasse aristocráticos o suficiente). Quanto a suas responsabilidades em relação às escolhas de Maria Antonieta, isso é difícil de afirmar. Parece que Maria Antonieta trabalhava junto a eles para decidir o tipo de estilo que ia experimentar. Bertin falava de sua colaboração com a majestade, sugerindo que a rainha se envolvia ativamente no processo de desenhar e escolher suas roupas e acessórios. Isso se confirma pelo fato de Maria Antonieta proporcionar a Bertin o privilegio sem precedentes (para uma pessoa comum) de ter reuniões privadas diárias, que podiam durar horas para cada vez. Isso parece demonstrar que Maria Antonieta era mais do que um manequim abastecido por diferentes estilos, ela parece ter participado ativamente e intensamente na criação de sua própria imagem.

Hoje você destaca alguma figura feminina política que, assim como Maria Antonieta, se impõe pela moda?
Eu não acho que já tenha existido na política ninguém que tenha usado a moda de uma forma tão variada, criativa ou agressiva como Maria Antonieta, projetando uma série de diferentes – porém, sempre politicamente explosivas – imagens públicas. Sim, Jackie Kennedy tinha uma imagem de polido refinamento; e a princesa Diana passou de uma ingênua garota do campo, de uma princesa de contos de fadas, para uma mulher emancipada, sexualmente segura, durante os anos em que esteve na mira da opinião pública. Mas as escolhas de Maria Antonieta – e suas diferentes imagens – eram muito mais complexas, e muito mais controversas. Por essa razão, ela realmente está só, como uma figura que marcou tanto a história da moda como a história das mulheres no poder. Isso quer dizer, as mulheres, muito mais do que os homens, são ainda hoje muito julgadas pelo que usam. Por esse motivo, precisam estar conscientes, na política, em maior ou menor grau, de que suas roupas são vistas como algo que fala sobre elas. Hillary Clinton optou pelos tons escuros, pelo visual simples e essencialmente masculino, como uma forma de revelar sua seriedade e sua capacidade de servir numa área tradicionalmente masculina. Laura Bush optou por adotar um estilo convencionalmente feminino, mas, mesmo assim, muito conservador, enfatizando sua imagem de mãe e dona de casa. Na França, Carla Bruni parece estar se inspirando em Jackie Kennedy, selecionando modelos que mesclam elegância e bom gosto, mas de forma alguma pode ser vista como controversa ou estranha. Todas essas mulheres, muito mais do que os homens, são dissecadas com base em suas roupas e suas aparências. Isso é algo que não mudou, desde a época de Maria Antonieta.
Categorias: Entrevistas