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Aventuras no mundo de Alice e suas Maravilhas

27 de Julho de 2015

*Por Adriana Peliano

Alice no País das Maravilhas é sem sombra de dúvida um dos livros mais ilustrados de todos os tempos. Até recentemente esse universo iconográfico era fortemente marcado pela influência das ilustrações originais de John Tenniel. Nas últimas duas décadas, cada vez mais essa influência vem sendo desafiada através de trabalhos que buscam um diálogo mais aberto e enigmático com a obra, superando uma abordagem mais literal, mais ligada na descrição das cenas e personagens.

Sou uma artista que trabalha com a colagem há mais de vinte anos, utilizando diferentes técnicas, unindo a arte digital e a colagem com papel e objetos. Essa é a segunda vez que ilustro as duas Alices de Lewis Carroll. Minha primeira viagem nesse sentido resultou no projeto de final de curso na UnB em 1998. No mesmo ano viajei para Oxford e passei uma semana na mesma universidade que Lewis Carroll e Alice Liddell viveram, na comemoração do centenário da morte do autor. Naquele momento tive a oportunidade de apresentar minhas ilustrações e conhecer membros das Sociedade Lewis Carroll da Inglaterra, dos Estados Unidos e do Japão.

Dezessete anos depois, minhas atividades ao redor de Alice e seu sonho mágico têm sido intensas e constantes. Alimento blogs, dou palestras e oficinas, publiquei artigos, ganhei um prêmio Jabuti, entre outras atividades.

Tive então a honra e o privilégio de receber um convite da Zahar para uma nova aventura no mundo de Alice e suas Maravilhas. Em Alice: edição comemorativa 150 anos, todas as imagens são colagens criadas digitalmente a partir das ilustrações originais de Tenniel.

 

                    frente                                         verso

A colagem, mais que uma técnica, é um jogo conceitual em que o conhecido muda de lugar. Assim, temos que sair do lugar comum e da nossa zona de conforto. Somos então confrontados por uma nova lógica que propõe enigmas e quebra-cabeças num convite ao sonho e ao nonsense.

Esse projeto reúne os dois livros de Alice em um só volume. Em cada um dos livros desenvolvi uma abordagem diferente. O País das Maravilhas é mais surreal, enquanto o Através do Espelho lida com a lógica do jogo mais próximo de uma ordem precisa e a todo momento desafiada. 

No País das Maravilhas, as ilustrações vitorianas de Tenniel, que apresentam os personagens e as cenas da história, são atravessadas por imagens de outros artistas, que convidam o leitor a ir além da história contada para os jogos de linguagem, a matemática e a lógica. Incorporo elementos gráficos de artistas modernos e contemporâneos que apresentam geometrias desconcertantes e impossíveis, convocando uma nova relação entre o tempo e o espaço não lineares. M. C. Escher, Oscar Reutersvärd e Penrose são alguns deles. A op art também é bem-vinda, com interferências da obra Bridget Riley. Outros artistas se aventuram no mundo dos sonhos e ampliam a visão da obra, que teve grande influência no surrealismo. Piero Fornasetti, Hieronymus Bosch e Salvador Dalí são presenças marcantes. 

Em Através do espelho, criei um quebra-cabeças interferindo nas imagens originais de Tenniel com o que chamo de tabuleiros de espelhos móveis e mutantes. A cada página o tabuleiro se reconfigura como se o espelho tivesse sendo atravessado a todo momento.

Bem, tenho muita intimidade com as imagens de Tenniel e tenho pesquisado intensamente a história das ilustrações de Alice. Como Alice é para mim uma fonte infinita de criatividade e invenção, assim que recebi o convite da Zahar o mundo de Alice voltou a fervilhar em mim.

Creio que levei uns quatro meses para ilustrar os dois livros, mas posso dizer de coração que enquanto criava essas imagens viajava em mundos mágicos onde o tempo cronológico não existe. Penso que porque Alice pode nos levar a esses outros mundos, ela continuará sempre se renovando em novas alicinações.

 

Adriana Peliano, artista e designer, trabalha com colagens há mais de 20 anos. Com dois mestrados em artes virtuais, no Kent Institute of Art, na Inglaterra, e na Universidade de São Paulo, recebeu o Prêmio Jabuti pelo projeto gráfico de Aventuras de Alice no subterrâneo, que traduziu junto com Myriam Ávila. É fundadora da Sociedade Lewis Carroll do Brasil.

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