Zahar

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Ariano Suassuna, o devorador de livros

28 de Julho de 2014

A infância na rua de Taperoá, na Paraíba, tinha uma atração maior do que todas as outras para o pequeno Ariano Suassuna: o encantamento do circo. Um circo sem bichos, com festa e divertimento espalhados em cada canto sob a lona. No picadeiro, malabaristas, trapezistas, bailarinas, mágicos e, principalmente, palhaços. “Bastava que alguém dissesse ‘O circo chegou’ que começava a desencadear-se um estado de tensão poética dentro de mim”, confessou Ariano.

A farra da criançada começava com a montagem da lona – a cidade toda parava para assistir. Meninos e meninas acompanhavam cada momento, ninguém queria sair de perto. A lona ia subindo, sendo esticada. A grande casa de espetáculos de Taperoá, humilde e encantadora, tomava forma. E crescia também a fascinação da meninada. Eram companhias pobres e, por isso, só ofereciam pedaços estreitos de madeira como arquibancada. Os que queriam mais conforto carregavam de suas casas bancos e cadeiras – formando assim os camarotes.

Se o circo já era a festa maior, nele também havia um personagem principal: o palhaço. E, entre todos os palhaços, o mais inesquecível era Gregório, astro do circo Stringhini. A lembrança de Gregório está, até hoje, marcada na literatura brasileira: é ele o palhaço-narrador do Auto da Compadecida, obra mais consagrada de Ariano Suassuna.

“Depois de assistir aos espetáculos, eu ficava dias e dias repetindo exatamente tudo o que os palhaços haviam dito, as brincadeiras, as graças. Minha mãe e minhas irmãs se cansavam da mesma história – uma delas chorou depois de tanto eu repetir as brincadeiras de Gregório”, não esquecia Ariano. Algumas vezes, ele declarou: “Na verdade, sou um palhaço frustrado.”

Ariano vivia cercado de mulheres: embora as duas irmãs mais velhas, Selma e Germana, fossem alunas de internato num colégio em Campina Grande, havia, além da mãe, as irmãs Beta e Magda e uma tia, Neves. A mãe, e principalmente a tia, ensinaram o futuro escritor a ler e a escrever. Tia Neves preparou uma surpresa, encomendando da feira a primeira cartilha para o sobrinho. Botou as mãos para trás do corpo e tentou fazer com que ele adivinhasse o presente. E perguntou: “Você me paga as alvíssaras?” O menino topou pagar com um jarro de cajarana. Tia Neves entregou-lhe então a cartilha. “Eu, brincando, digo: não sabia ela que estava me escravizando para o resto da vida. Claro que brincando, porque ela estava me abrindo um reino da mais alta importância, o reino da leitura.

Reino por onde Ariano começou a passear, seduzido, desde que conseguiu perceber o que diziam os livros. A leitura sempre foi ótima companheira e dela faziam parte obras como Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas, e os clássicos brasileiros de Monteiro Lobato. O pai havia deixado uma boa biblioteca, e alguns livros são guardados até hoje como relíquias: um exemplar dos Sertões, de Euclides da Cunha; Cantadores, Sertão alegre e Violeiros do Norte, os três escritos pelo cearense Leonardo Mota; A ilustre casa de Ramires e A cidade e as serras, do português Eça de Queirós.

Quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras, em seu discurso não se esqueceu nem do palhaço Gregório nem do muito que viu no interior da Paraíba. Declarou na sala lotada de acadêmicos:

Ainda menino, no Sertão da Paraíba, o palco mágico e festivo do Teatro, com seus violentos contrastes entre recantos sombrios, povoados de assassinatos, e zonas de luz cheias de gargalhadas, todo esse mundo me foi revelado, ao mesmo tempo, pelo Circo, onde travei conhecimento com O terror da serra Morena e com o palhaço Gregório; pelo auto popular O castigo da soberba, do Cantador paraibano Silvino Pirauá; e pela ribalta armada, pelo ator Barreto Júnior, num velho armazém de algodão deliberadamente esvaziado para esse fim. Barreto Júnior, naquela temporada, para mim memorável, encenou a comédia O grande marido, o drama A ladra, de Silvino Lopes, e Deus lhe pague, de Joracy Camargo. Ora, ainda hoje a receita do meu teatro continua a ser essa fórmula, para mim mágica, que entrou em meu sangue na infância com a Comédia brasileira, o Drama, o Romanceiro, os espetáculos populares e o Circo. Ou seja: o palhaço Gregório, Silvino Pirauá, Silvino Lopes, Barreto Júnior e Joracy Camargo.

Ariano repetiu muitas vezes que, em sua opinião, a infância, e também um pouco a adolescência, é o tempo em que se forma o universo mítico do escritor. “Depois daí, tudo é acréscimo.” No caso dele não há como se questionar a influência desse universo sertanejo e mítico em sua formação, e por isso Taperoá continuou sempre a terra querida de dona Ritinha e de seus filhos, sobretudo do oitavo deles.

 
Homenagem da Zahar ao leitor, escritor e imortal Ariano Suassuna, que deixou saudades e um valioso legado para a literatura brasileira no dia 23/7/2014.
Imagens e excertos adaptados de Ariano Suassuna: Um perfil biográfico.
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