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150 anos de H.G. Wells – Confira um trecho da apresentação de “O Homem Invisível”

21 de Setembro de 2016

H.G. Wells de muitas maneiras inventou, no fim do século XIX, o futuro. Hoje seus livros são considerados clássicos da ficção científica, e seu legado continua influenciando o cinema, os vídeo games e a literatura.

Em 2017 O Homem Invisível se junta à coleção Clássicos Zahar. Seguindo o padrão da coleção, a edição será comentada, com capa dura, acabamento de luxo e cronologia de vida e obra de Wells.

Leia abaixo um trecho da apresentação de Thiago Lins para O Homem Invisível.

 

Apresentação

AS DESVANTAGENS DE SER INVISÍVEL

 

          Herbert George Wells nasceu em 21 de setembro de 1866 em Bromley, Kent, Inglaterra. Filho de comerciantes, o futuro escritor teve um conturbado início de vida escolar, uma vez que a pequena loja de seu pai fechou as portas quando George tinha treze anos, obrigando-o a trabalhar para garantir o próprio sustento.

 

 

Em 1881, depois de breves atuações como professor particular e assistente de farmacêutico, Wells se tornou jovem aprendiz em uma loja de departamentos em Southsea, num turno de trabalho de treze horas, o que o obrigava a dividir um dormitório com seus colegas de profissão. Dois anos depois, obteve o posto de professor-assistente na escola MidhurstGrammarSchool, até ingressar, em 1884, na Normal Schoolof Science, em South Kensington, através de um programa de bolsas do governo. Finalmente seu negligenciado lado intelectual pôde florescer. Ainda que fosse impaciente e desinteressado no que dizia respeito aos detalhes práticos do trabalho em laboratório, Wells adorava o lado teórico e o universo imaginativo das ciências, dedicando também muito de seu tempo à leitura de história e literatura.

 

Conquistou, em 1890, o posto de tutor em biologia no University Correspondence College e, enquanto esteve vinculado a essa instituição, começou a traçar seu caminho como jornalista e escritor. Três anos mais tarde publicou seu primeiro livro, um manual de biologia, e começou a resenhar ficção para jornais.

 

O ano de 1895 foi determinante na vida de Wells, pois o escritor novato finalizou e publicou uma história em que trabalhava desde os anos de estudante. O que inicialmente se chamava As crônicas argonautas tornaria-se A máquina do tempo, um sucesso instantâneo que proporcionou ao autor o título de inventor do romance científico.

 

A combinação de romance de aventuras e conto filosófico – o que mais tarde se chamaria de “ficção científica” – é a marca registrada de seus primeiros livros, uma fórmula na qual o herói ou protagonista envolve-se numa situação de vida ou morte por meio de um inconcebível artifício científico. É o que ocorre na Ilha do dr. Moreau (1896), em O Homem Invisível (1897), na Guerra dos mundos (1898) e nos demais sucessos que vieram rapidamente.

 

A ascensão do autor foi tão repentina que, na virada para o século XX, Wells já fora traduzido em inúmeros países, entre eles França, Alemanha, Espanha e Rússia. Seu êxito foi grande ao ponto de ameaçar o posto de Jules Verne, seu predecessor na incipiente tradição da ficção científica e a principal referência no gênero desde os anos 1860.

 

No final da primeira década do século XX, quando publicou seus romances sociais, Tono Bungay e The New Machiavelli, Wells era considerado um dos principais romancistas de sua época, amigo e rival de escritores do porte de Joseph Conrad e Henry James. O autor nunca se destacou como grande estilista, mas o conteúdo social e as mensagens políticas de seu trabalho – presentes desde seu primeiro sucesso, no qual a luta de classes é representada pela oposição Eloi / Morlock – sempre o alçaram a um patamar de respeito na cena literária mundial.

 

Ann Veronica, de 1909, é um dos primeiros romances a contemplar temas controversos à época, como os direitos da mulher e igualdade de gêneros, e a debater questões morais ainda contemporâneas a nós. Wells nunca se tornou um escritor experimental no sentido da forma, como, por exemplo, seu colega mais jovem James Joyce, mas isso não o impediu de ser tecnicamente inovador e romper com certas regras do cânone literário. Dois de seus maiores sucessos são os livros de história que publicou na década de 1920, The Outline of History – que carregava o ambicioso subtítulo “Toda a história da humanidade” – e A Short History of the World, ambos rompendo com as convenções históricas ao tentar pressupor o que viria dali em diante.

 

Por conta de sua postura política, Wells será sempre lembrado não só como grande escritor, mas também como uma das grandes figuras públicas do século XX. Os relatos de seu encontro com Lênin em 1920 – cujo esforço para remediar a destroçada economia russa despertou simpatia no autor – e sua entrevista, em 1934, com o sucessor Stálin – que o desiludiu com sua crescente rigidez doutrinária – repercutiram no mundo inteiro. Sua última grande obra, The Rights of Man: Or What Are We Fighting For?, publicada em 1940, trata justamente dos direitos humanos, e serviu como inspiração para a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, oito anos depois.

 

O autor faleceu em 13 de agosto de 1946, deixando como legado mais de cinquenta livros de ficção entre um total de quase 140 obras – incluindo não ficção, artigos e panfletos – que publicou em vida.

 

(...)

 

O Homem Invisível

 

Originalmente serializado na revista Pearson’s Weekly, em 1897, O Homem Invisível foi publicado como romance no mesmo ano. O sucesso instantâneo do livro se deve, entre outros fatores, ao modo engenhoso como seu criador o estruturou. A história começa in media res, transportando-nos diretamente à ação, na pacata Iping, onde um misterioso forasteiro “cambaleia”, com ares macabros, até a hospedaria Coach and Horses. Não sabemos seu nome, seu passado, a razão de estar ali e tampouco qual deformação obriga-o a usar chamativos óculos escuros redondos e trazer o rosto enfaixado sob um chapéu de abas caídas.

 

(A opção de situar a narrativa de suas obras de ficção científica em uma cidade ou região real é um recurso recorrente em Wells. O autor se valia de lugares e pessoas comuns para dar mais credibilidade a certas situações ou personagens absurdas. Em Experiment in Autobiography – sua autobiografia em dois volumes, publicada entre 1932 e 1934 – ele conta como explorou a região de Surrey de bicicleta, estudando sua topografia, engendrando esboços e escolhendo locais, e pessoas, convenientes para serem destruídos por seus marcianos na época em que escrevia  A guerra dos mundos.)

 

O forasteiro é um cientista que se dedicou ao estudo da luz e descobriu um modo de alterar o índice de refração do próprio corpo, tornando-se invisível. Wells divide parcimoniosamente essas informações com o leitor, aumentando aos poucos a tensão, e só no capítulo 17 – de um total de 28 – nos são revelados o nome e o passado do protagonista:

 

Não se lembra de mim, Kemp? Griffin, do University College? ... Um aluno mais novo que você, quase albino, mais de um metro e oitenta, corpulento, com um rosto rosado e branco, de olhos vermelhos, que recebeu a medalha de química.

 

O grande problema de Griffin é como reverter a experiência, uma vez que acompanha o esgotamento de seus recursos financeiros sem qualquer indicação de que voltará a ser visível um dia. Sua fuga para o campo é uma última cartada, a última chance de retornar à normalidade. Não obstante, sua incontida fúria pelos reiterados fracassos, o comportamento antissocial, bem como seus hábitos e vestuário exóticos, tornam o cientista muito mais evidente que os demais cidadãos da pequena Iping. A princípio um tema de debate conveniente para fugir do tédio usual, gradualmente o estrangeiro passa a se tornar uma ameaça, uma afronta à regularidade e ao anonimato provincianos. (Wells deve ter tido um bom motivo para escolher a pequena Iping para ser tomada de assalto e assombrada pelo misterioso forasteiro.)

 

H.G. Wells consegue transformar dificuldades como fome e frio em oportunidades para criar terríveis atmosferas de tensão e mistério. A necessidade que Griffin tem de não comer para não ser descoberto – já que o alimento torna-se visível ao ser digerido e absorvido pelo corpo –, bem como a de andar nu em meio às intempéries para não revelar sua presença, cria um naturalismo inexistente em outros livros do gênero. Os capítulos 21, “Na Oxford Street”, e 23, “Na Drury Lane”, são um verdadeiro desfile de situações realistas sobre os percalços e as desvantagens de ser invisível. Gradualmente, depois de inúmeros crimes cometidos diante de uma falsa promessa de impunidade – seja a invasão ao vicariato em busca de dinheiro, ou o “sacrifício criterioso” de algum indivíduo no processo –, o cerco ao redor de Griffin começa a se fechar. Caberá a ele lidar com as consequências de seus atos e com o inevitável desfecho.

 

O Homem Invisível não é somente ficção científica em sua quintessência, é também um belo livro sobre solidão, incompreensão, sobre dar as costas à humanidade. As consequências dessa escolha nem sempre favorecem o protagonista, como muitas vezes nos atesta a boa literatura: o Crime e castigo de Dostoiévski, o Walden de Thoreau ou até mesmo o simpático romance adolescente de Stephen Chbosky que, por meio de paródia, dá título a esta apresentação.

 
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